FADINHO DE SACUDIR



Meu Porto,
que bom é pronunciar,
que bem me sabe cantar
teu nome em verso de sábios...
Neu Porto,
palavra como se fosse
gotinha de almejo doce
a deslizar em meus lábios. Meu Porto,

Manuel Morais, pessoa onde a palavra Humanidade cabe exemplarmente a rigor, agora em busca da sua 76ª. Primavera, persiste vigoroso, como se de empolgado jovem se tratasse, na sua auspiciosa carreira artística, longa de 60 anos, toda feita da salutar mistura que coloca a saudade - antiga telefonia alimentada a vinil - perfeitamente actualizada sob os domínios da técnica que cada vez mais surpreende pelo inovado avanço.. O saudoso e qualificado empresário Fernando Gonçalves designou-o em época transacta por «Rei da Alegria», apôdo que MM continua a esmerar para assim prosseguir liberto da tristeza de todas as dívidas.

A juntar a mais de meia-centena de outros interessantes e memoráveis efeitos, também mais uma vez MM surge à lide com um novo trabalho discográfico, este CD, que com azada propriedade titulou de «Cantas tu e canto eu», onde apresenta 18 alegres e airosos números em parceria com Lurdes de Sousa, excelente intérprete, cançonetista e fadista nortenha, que há 25 anos com amiga fidelidade o acompanha nos mais diversos recintos, palcos e cenários.

Pessoalmente, enfim, ao Manuel e à Lurdes, aquém e além dos anódinos votos que por todo o lado inúteis esvoaçam, desejo-lhes sobretudo que as inevitáveis vicissitudes não cessem de despertar-lhes o anseio de mais e mais serem o que são, deixando-lhes também aqui e em vénia um sincero apelo: depois de tantos e tantos, vá, «só mais um...», que quiçá até possa ser o título do próximo.

António Torre da Guia

SALVO A EXCEPÇÂO

Afirmar, eu é que sei,
ao deus-dará e sem lei,
sempre que ouvires alguém,
quando o comboio passar
verás que ficou na gare
uma sombra de ninguém.

Um gigante de mãos-cheias
entre búzios e sereias
cavalga em todos os fados,
tendo por dentro um anão
doidivanas, intrujão,
no céu dos sonhos alados.

Pra conter as criaturas
incontáveis fechaduras
abrem e fecham em vão,
enquanto em nua verdade
quem bem faz o que bem sabe
será sempre uma excepção. Diz-me cá, sábio Manel, se algo sabes de Marias, no Porto, à flor da pele, quantas são as freguesias? São quinze, e não te rias de meus secretos amanhos; nasci e sou de Paranhos e ainda tu nada sabias... Entre os poucos amarelos e os milhares de popós, eu passo por Massarelos e já tu estás na Foz.. Maria não te aflijas por mim por que à frente ou atrás vamos chegar ao Bomfim Não te afadigues Maria nem aflijas por mim por que está certinho o dia pra chegar ao Bonfim CANTAS TU E CANTO EU 1. - A Nossa Cantiga 2. - Maria Cheia de Graça 3. - Amor no Quintal 4. - Rusga da Vitória 2008 5. - M & M 6. - Fado Numerado 7. - O São João Tripeiro 8. - Lisboa é sempre assim... 9. - Teia de Amor 10. - Jura que me queres 11. - Dá-me beijos muitos beijos 12. - Eu já não sou essa 13. - Marcha dos Três Santos 14. - Quero para ti mais e mais 15. - Fadinho Serrano 16. - Dona Chica Senhor Pires Paranhos Nevolgide Ramalde Aldoar Massarelos Foz Bonfim Diz-me cá, sábio Manel, se algo sabes de Marias, no Porto, à flor da pele, quantas são as freguesias? São quinze, e nunca te rias de meus secretos amanhos; nasci e sou de Paranhos e ainda tu nada sabias... De Nevolgide em meus dias talvez fosse se os santinhos mais a norte não pusessem meu berço em Matosinhos. Ai, Maria, os adivinhos de Ramalde ou de Aldoar vão por todos os caminhos só pra te ouvirem cantar. Até, Manel, se calhar em Campanhã se constasse. Entre os poucos amarelos e os milhares de popós, eu passo por Massarelos e já tu estás na Foz.. Maria, cuida a saudade, não te aflijas por mim, por que mais cedo ou mais tarde vamos chegar ao Bomfim.

FADO CRISMADO Às ditas terras distantes onde os homens como dantes vão cumprir o seu dever, também eu fui seduzido, d' amor-pátrio convencido para viver ou morrer. Entre amigos e família no cais em triste vigília ficou minha namorada d' olhos presos ao vazio onde o calor e o frio desfazem tudo em nada. Hoje se algo recordo quand' em pânico acordo e minha mulher abraço, tenho a sensação d' estar depois da morte a sonhar que flutuo no espaço. Pelo destino crismado regressei e canto o fado à mulher da minha vida; afinal, como outrora, no meu cais tenho agora quem lá ficou à partida. Porto, 7 de Outubro de 2008 António Torre da Guia

FADINHO EXCEPCIONAL Afirmar, eu é que sei, ao deus-dará e sem lei, sempre que ouvires alguém, quando o comboio passar verás que ficou na gare uma sombra de ninguém. Um gigante de mãos-cheias entre búzios e sereias cavalga em todos os fados, tendo por dentro um anão doidivanas, intrujão, no céu dos sonhos alados. Pra conter as criaturas incontáveis fechaduras abrem e fecham em vão, enquanto em nua verdade quem bem faz o que bem sabe será sempre uma excepção. Porto, 7 de Outubro de 2008 António Torre da Guia

FADO MATOSINHOS Quando digo Matosinhos sinto que a terra e o mar se estreitam no abraço ond' entr' amantes carinhos eu nasci para sonhar em maternal regaço. Matosinhos, terra, mãe, meu pai, meu intenso mar em maré vaza ou cheia, Matosinhos, sempre além, quando ergui para brincar meus castelos sobr' a areia. Matosinhos, canto agora, cidadão ao arrebol dos sonhos que vão nascer na cidade em bela aurora até que ainda mais sol se faça pra eu viver. Matosinhos, meu Senhor, de minha voz mor-mandante pra eu cantar ao futuro os fados do meu amor e enfim de fado avante chegar a porto seguro. Porto, 7 de Outubro de 2008 António Torre da Guia

FADO MATOSINHOS Quando digo Matosinhos sinto que a terra e o mar se estreitam no abraço ond' entr' amantes carinhos eu nasci para sonhar em maternal regaço. Matosinhos, terra, mãe, meu pai, meu intenso mar em maré vaza ou cheia, Matosinhos, sempre além, quando ergui para brincar meus castelos sobr' a areia. Matosinhos, canto agora, cidadão ao arrebol dos sonhos que vão nascer na cidade em bela aurora até que ainda mais sol se faça pra eu viver. Matosinhos, meu Senhor, de minha voz mor-mandante pra eu cantar ao futuro os fados do meu amor e enfim de fado avante chegar a porto seguro. Porto, 7 de Outubro de 2008 António Torre da Guia

Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice em 1940 e logo aos 23 anos de idade saíu à crista das letras francesas com «Le Procès-Verbal». Sua estrelinha literária ficou de brilho assegurado ao ser-lhe atribuído o prémio Théophraste Renaudot. Em sequência, após a publicação de quatro dezenas de livros - romances, ensaios, novelas e traduções - assim como numerosos prefácios, artigos e contribuíções colectivas, em 1980, a considerar toda a sua obra, com destaque para o título «Désert», foi o primeiro escritor a receber o prémio Paul Morand. Cerca de três lustros depois, aos 54 anos de idade, Le Clézio logrou o pódio dos vivos em língua francesa. Lorsque j'ai commencé à écrire, j'écrivais pour le seul plaisir de raconter des histoires, justement. Mais je m'en suis aperçu en écrivant La quarantaine, maintenant j'écris pour une autre raison. Au fond, j'écris pour essayer de savoir qui je suis. Chercher l'aventure... Logo que comecei a escrever, escrevia tão-só pelo prazer de contar histórias, precisamente. Mas em escritor

Numa madrugada de meados de 1966, após mais um serão de fados na Candeia, estaria eu a cear no restaurante Ginjal na companhia de Fernando Gomes, Nuno de Aguiar, Agostinho Mendes e outros nocturnos figurantes, comecei a escrever sobre o dorso de uma ementa: Olhai a noite, vêde as sombras dessas ruas, saudades que martirizam, que matam; olhai a noite, refúgio das almas nuas, verdades que muitos sequer as notam. Tratava eu de gizar o versejo que enunciaria e complementaria uma letra para fado, cujo refrão já havia concebido e decorado: Não passo bem a noite sem um fado, não passo bem a noite sem beber, não passo bem a noite abandonado, não passo bem a noite sem mulher. Prossegui então com a segunda-parte do desiderato: Olhai a noite nessas longas madrugadas, fadistas, à procura de um destino: Olhai a noite, ermo imenso desses nadas fatalistas, vagueando em desatino. Lograda o escrito, dobrei a ementa e meti-a no bolso. Depois de 4 horas de sono empurrado - dormia eu então sem mulher - passei os versos à máquina no escritório onde trabalhava, firma Engº. Gustavo Cudell, na rua do Bolhão. Na noitada imediata entreguei a folha dactilografa ao guitarrista Álvaro Martins, o qual, com um «vamos ver o que se pode fazer» a guardou na caixa da sua guitarra. Uns dias adiante, nos intervalos da sessão de fados, começou o ensaio vocal e musical, com a participação do Mário Lopes, em guitarra clássica, e as vozes de Fernando Gomes, Nuno de Aguiar e Maria da Assunção. O Nuno sugeriu então oportuno que o verso «não passo bem a noite sem mulher» fosse modificado para «não passo bem a noite sem te ver», alteração que sem delongas considerei ideal. Olhai a noite, vêde as sombras dessas ruas, saudades que em martírio derrotam; olhai a noite, refúgio das almas nuas, verdade que muitos sequer as notam Olhai a noite, nessas longas madrugadas, fadistas à procura de um destino, olhai a noite

Rodopio No Porto de noite e dia em tertúlia bacana tem o Fado romaria sete dias por semana. Em constante rodopio Arcadas do Infante Monte Aventino Largo dos Grilos Arca de Noé Sonho de Miranda Flor da Fonte Samuel - Solar da Mariquinhas Três AAA na Corujeira Repuxo Manancial Mamã Escritório

Natais e Aleluias tenho eu todos os dias em sucessão infernal entre aqueles que acreditam que os mortos ressuscitam pra gozar o Carnaval. Palavrinha a palavrinha a profusa ladainha dos que sabem sem saber logo que aparece em gestos lembra-me as sobras, os restos que ninguém sonha comer.



Na tasca da Piedade onde o Douro faz manguito pra cair na mão do mar, todas as terças à tarde entre o fado e um copito a malta vai petiscar. Democratas na função pela ordem de chegada à lista desfila o prélio, e em sana comunhão não há garganta afinada que tire a vez ao Capélio. Se da pinga sai banzé por dá cá alguma palha que um asno quer comer, logo a dona bate o pé pra conjugar a maralha na arte de bem beber. A par de velhos fadistas, amadores e aprendizes defronte ao Douro a correr, também turistas vê-se o brilho das raízes

Do encanto ao desencanto os fadistas da cidade em milagrosa aguarela desabafam o seu pranto presos ao céu da saudade à procura de uma estrela

M-M MUITO MEU M-M- é o meu nome A pedir o «a» de amor No seio da natureza, Um almejo que consome Este meu ser de cantor Lutando contra a tristeza. M-M minha mãe, Meu muito meu, melodia, Meu mundo de ser também Militante da alegria. M-M é concerteza O meu destino final Rumo à luz da harmonia Algures entre a singeleza, Infante de Portugal Sobre o Porto da alegria. Voz = Manuel Morais Versos = Torre da Guia Música = José Quelhas

Quem abandalha o bandalho na rima está a empurrar a bigorna para o malho que o há-de esmagar.

Se o fado tem expressão por onde o corpo levita quando se ergue do chão a gente nem acredita. Pobre de mim, coitadinho, no ninho de meu cansaço, quase no fim do caminho já nem sei por onde passo.

Quem abandalha o bandalho na rima está a empurrar Ó meu Deus, que grande asneira, eu não mereço perdão,

SILÊNCIO DA SALVAÇÃO Meu amor, não digas nada, por favor, fica calada, não adianta falarmos; entre nós foi-se a palavra e enquanto o cão não ladra deixa o silêncio salvar-nos. Deixa o silêncio amarrar o tempo que nos restar num derradeiro amplexo, acredita que a amizade por saber que nada sabe não tem ciúme nem sexo. O amor quando se esquece abandonado adormece sem vontade de acordar e logo que em si desperta só tem na casa deserta um gato triste a miar. Vamos sair, espraiar, cansar-nos a caminhar para abrir a pouco e pouco as portas do universo que nos trará de regresso e de encontro um ao outro.